Interpretação de textos e intertextualidade

Oi filha querida,

Com o tempo, você vai perceber que interpretar um texto pode ser algo bastante complexo e abrangente. Um aspecto é dessa interpretação é a intertextualidade, sobre a qual vamos conversar hoje.


Intertextualidade

A intertextualidade acontece quando um texto retoma uma parte ou a totalidade de outro texto – o chamado texto fonte. Geralmente, os textos fontes são aqueles considerados fundamentais em uma determinada cultura.

No exemplo a seguir, compositores brasileiros modernos retomam um dos textos mais reverenciados da literatura portuguesa. Na canção Tudo vale a pena, os autores Pedro Luis e Fernanda Abreu fizeram o seguinte refrão: Tudo vale a pena, sua alma não é pequena. O mote, na verdade, faz referência ao famoso poema Mar português, do poeta Fernando Pessoa:

Tudo vale a pena (refrão)

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Mar português (Fernando Pessoa)

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Assim, temos que dois textos distantes no tempo e no espaço, dialogam entre si. A intertextualidade é exatamente essa relação, uma forma de diálogo entre dois ou mais textos.

Observe que a intertextualidade pode ocorrer entre textos de mesma natureza ou de naturezas diferentes: texto com quadrinhos; quadrinhos com fotografias; texto com poema etc.


Exercício

Diante dos trechos dos poemas abaixo, escreva uma análise, tendo em vista as relações intertextuais entre estes e o texto-matriz, sob de autoria de Gonçalves Dias.

Canção do Exílio (Gonçalves Dias)

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
[…]

 

Canção do Exílio facilitada (José Paulo Paes)

lá?
ah!
sabiá…
papá…
maná…
sofá…
sinhá…
cá?
bah!

 

Canto de regresso à pátria (Oswald de Andrade)

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo

 

Canção do Exílio (Murilo Mendes)

Minha terra tem macieiras da Califórnia
Onde cantam gaturamos de Veneza
Os poetas da minha terra
São pretos que vivem em torres de ametista,
Os sargentos do exército são monistas, cubistas,
Os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
Com os oradores e os pernilongos
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
Nossas frutas são mais gostosas
Mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
E ouvir um sabiá com certidão de idade !

Beijo do pai!

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